o Paraíso

Quarta, onze e meia da manhã, metrô está com velocidade reduzida devido a chuva. Os passageiros como de costume estão concentrados em seus subjetivismos baratos enquanto seu destino não chega. As portas do metrô se abrem, um rapaz entra, estatura mediana, vestes pretas, mochila e um boné branco, estranhamente comum, começa a falar alto, aparentemente sozinho, está com fone de ouvido, penso que devido a ele estar ouvindo música ele fala tão alto, não para, começa a falar de Deus, recita salmos como poesia, com dolorosa força, chegando por vezes a ser piegas, percebo que sua voz não mantém a mesma intensidade dramática como se deveria, e em alguns momentos há uma certa desafinação, penso que ele leva jeito, mas precisa urgentemente de um curso de teatro. Metrô pára em uma estação. Abre as portas. Um senhor próximo a porta o olha de soslaio, o rapaz percebe,e, como que incumbido da missão de doutriná-lo, sem hesitar caminha em direção ao velho, com tal intensidade que me lembra por alguns segundos um dos personagens de Glauber Rocha. O rapaz inicia novamente seu discurso, quase que exclusivamente para o velho, ou melhor, para o ouvido esquerdo do velho, o mesmo olha ao redor da estação numa inútil busca de socorro, desiste, volta-se para o rapaz, o olha por longos meio segundo, o rapaz para de falar, o calafrio dos dois é latente. "Vai ser feliz ao lado de Deus" vocifera o rapaz para o velho, "Vai ser feliz ao lado de Deus!!!" repete com mais intensidade ritmica, como numa velha peça de Zé Celso, o rapaz com pequenos e de certa forma, contidos movimentos, empurra pouco a pouco o velho do metrô, estuperfato pela atitude imprevisível do rapaz, é incapaz de resistir a ação. não há reação. cai para fora do vagão, o trem apita, as portas se fecham, "Vai ser feliz ao lado de Deus" grita abafadamente em razão do fechamento da porta, se entreolham uma ultima vez através da porta. o trem parte, "Vai ser feliz ao lado de Deus" o velho ouve enquanto o trem parte, do outro lado do trilho do trem uma faixa verde corta a parede de concreto, pode se ler "paraíso".
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