quarta-feira, outubro 24, 2007

o Paraíso



Quarta, onze e meia da manhã, metrô está com velocidade reduzida devido a chuva. Os passageiros como de costume estão concentrados em seus subjetivismos baratos enquanto seu destino não chega. As portas do metrô se abrem, um rapaz entra, estatura mediana, vestes pretas, mochila e um boné branco, estranhamente comum, começa a falar alto, aparentemente sozinho, está com fone de ouvido, penso que devido a ele estar ouvindo música ele fala tão alto, não para, começa a falar de Deus, recita salmos como poesia, com dolorosa força, chegando por vezes a ser piegas, percebo que sua voz não mantém a mesma intensidade dramática como se deveria, e em alguns momentos há uma certa desafinação, penso que ele leva jeito, mas precisa urgentemente de um curso de teatro. Metrô pára em uma estação. Abre as portas. Um senhor próximo a porta o olha de soslaio, o rapaz percebe,e, como que incumbido da missão de doutriná-lo, sem hesitar caminha em direção ao velho, com tal intensidade que me lembra por alguns segundos um dos personagens de Glauber Rocha. O rapaz inicia novamente seu discurso, quase que exclusivamente para o velho, ou melhor, para o ouvido esquerdo do velho, o mesmo olha ao redor da estação numa inútil busca de socorro, desiste, volta-se para o rapaz, o olha por longos meio segundo, o rapaz para de falar, o calafrio dos dois é latente. "Vai ser feliz ao lado de Deus" vocifera o rapaz para o velho, "Vai ser feliz ao lado de Deus!!!" repete com mais intensidade ritmica, como numa velha peça de Zé Celso, o rapaz com pequenos e de certa forma, contidos movimentos, empurra pouco a pouco o velho do metrô, estuperfato pela atitude imprevisível do rapaz, é incapaz de resistir a ação. não há reação. cai para fora do vagão, o trem apita, as portas se fecham, "Vai ser feliz ao lado de Deus" grita abafadamente em razão do fechamento da porta, se entreolham uma ultima vez através da porta. o trem parte, "Vai ser feliz ao lado de Deus" o velho ouve enquanto o trem parte, do outro lado do trilho do trem uma faixa verde corta a parede de concreto, pode se ler "paraíso".

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sábado, outubro 20, 2007

Personagens e cachorro diante do sol

olho para meu caderno. há pelo menos 30 minutos tento reproduzir de cabeça "Personagens e cachorro diante do sol" do Miró, claro que não consegui, mas de qualquer forma começo a colorir o desenho com uma bic sem tampa que eu achei no chão semana passada, minhas mãos começam a cansar, descanso, tento olhar para a professora. ela sempre fala sentada na cadeira, pois ela tem problema de varizes ou coisa assim, nunca consigo vê-la de onde eu sento, olho então para o lado, no canto da sala, A. está dormindo na sua carteira, parece dormir pesadamente, de repente percebo que algo começa a pingar no chão, gotas que parecem vir de seus olhos, mas não posso afirmar pois ele está com a cabeça apoiada nos braços de tal maneira que não dá para ver seu rosto, os pingos vão aumentando de intensidade, e num rompante, cai uma enxurada deste estranho liquido de plasticidade levemente brilhante, desabando com certa violência no chão, percebo então que o que ele deixou cair são seus sonhos. cairam todos de sua cabeça. a professora ao comentar sobre a estrutura economica criada pelo marques de pombal faz com que parte do líquido se transforme em dezenas de pombas de cores e texturas diversas e as mesmas voam por toda a sala, os outros alunos observam com indiferença. olho para o chão e percebo ainda que seus sonhos estão inundando a sala como se a mesma se tornasse um grande lago, posso ver meu reflexo no chão, e que vai distanciando cada vez mais de mim, tenho a impressão que estou em um precipício. a porta da sala abre, é aquele cara que sempre chega atrasado, R. é aquele cara que sempre faz um paralelo político com os espartanos ou os atenienses, no começo era legal, mas essas comparações já me irritam profundamente. ele pisa leve e de ponta dos pés para não molhar a barra da calça, se senta ao meu lado, me pergunta se já passou a lista, digo que não. as pombas saem da sala, R. pega a lista de frequencia nas mãos, ele me lembra Alexander Delarge sem as sombracelhas, seus dentes são demasiadamente amarelos mas seu rosto ainda sim é bem parecido com o do personagem de kubrick, ele dá um toque em A. para acordá-lo, seus sonhos esparramados no chão parecem vibrar, meu reflexo se aproxima de mim com extrema velocidade, parece que estou caindo de um precipício. A. acorda, o chão está seco. A. assina a lista, o sinal toca. olho para o meu desenho novamente e fecho meu caderno.