terça-feira, janeiro 22, 2008

cheiro poético

sexta-feira. noite. estou no ponto de ônibus esperando o S-36 pra voltar pra casa. estou vindo do ensaio da minha banda. penso nos arranjos rítmicos que pretendo fazer para as músicas novas. penso que talvez precise ouvir algumas bandas para me influenciar em determinadas texturas ritmicas, penso em ouvir superchunk, acho que tem no meu Ipod...
_ esse mundo fede!!! - esbraveja um senhor que apareceu subitamente em minha frente, não sei exatamente de onde, mas que fulminou totalmente a minha linha de raciocínio.
_ esse mundo fede, você não acha? - me pergunta. aparentando uns 45 anos, estatura média, barba por fazer, usa um terno velho e um tenis rainha iate tão velho quanto seu terno. seu rosto denota certo rancor e melancolia, e um brilho desbotado lateja de tempos em tempos nos seus olhos presos em olheiras profundas como molduras decadentes de quadros baratos. - fede sim - respondo sem muita vontade, odeio conversar quando quero ficar pensando.
_ fede pra caralho!! - vocifera o homem, penso que ele vai me bater, tamanho é a força contida em suas palavras, percebo que sua boca cheira álcool, penso que deva ser álcool zulu, o que me deixa profundamente nauzeado, devido a uma adolescencia marcada de porres homericos meu organismo não suporta mais esse cheiro. - mas vou te contar uma coisa - continua falando, seus olhos voltam a brilhar. - quando uma pessoa nasce a primeira coisa que ela cheira é merda, pois perto da vagina da mãe fica localizada o ânus, que provavelmente deve estar fedendo devido ao medo e a dor!!! - exclama, fico sem reação.. "o mundo fede" ecoa dentro de mim, percebo então que além dele cheirar álcool zulu, ele também fede a mijo, e ali parado naquela rua suja e alaranjada pela iluminação de mercúrio dos postes, esmagados pelo vazio do concreto dos edifícios tipicamente burgueses daquela rua, o vi de uma forma estranhamente poética, uma espécie de expressionismo marginal, e acima de tudo, um humano, no sentido mais puro da palavra, brutalmente puro, brutalmente humano.
o meu ônibus chegou, sem nos despedirmos embarquei, e da janela do onibus o vi ser engolido pelo vazio..

1 Comments:

Blogger SOCIALETE said...

Sim, o mundo fede... rsrs... Mas tenho certeza que o senhor de 45 anos, na plenitude da sua crise da meia idade, deseja intensamente o cheiro de uma vagina... seja lá qual for... rsrs...
Mas seus gritos tem poesia com certeza. Bem dolorosa. Realmente, brutalmente humano.

9:26 PM  

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