sábado, outubro 20, 2007

Personagens e cachorro diante do sol

olho para meu caderno. há pelo menos 30 minutos tento reproduzir de cabeça "Personagens e cachorro diante do sol" do Miró, claro que não consegui, mas de qualquer forma começo a colorir o desenho com uma bic sem tampa que eu achei no chão semana passada, minhas mãos começam a cansar, descanso, tento olhar para a professora. ela sempre fala sentada na cadeira, pois ela tem problema de varizes ou coisa assim, nunca consigo vê-la de onde eu sento, olho então para o lado, no canto da sala, A. está dormindo na sua carteira, parece dormir pesadamente, de repente percebo que algo começa a pingar no chão, gotas que parecem vir de seus olhos, mas não posso afirmar pois ele está com a cabeça apoiada nos braços de tal maneira que não dá para ver seu rosto, os pingos vão aumentando de intensidade, e num rompante, cai uma enxurada deste estranho liquido de plasticidade levemente brilhante, desabando com certa violência no chão, percebo então que o que ele deixou cair são seus sonhos. cairam todos de sua cabeça. a professora ao comentar sobre a estrutura economica criada pelo marques de pombal faz com que parte do líquido se transforme em dezenas de pombas de cores e texturas diversas e as mesmas voam por toda a sala, os outros alunos observam com indiferença. olho para o chão e percebo ainda que seus sonhos estão inundando a sala como se a mesma se tornasse um grande lago, posso ver meu reflexo no chão, e que vai distanciando cada vez mais de mim, tenho a impressão que estou em um precipício. a porta da sala abre, é aquele cara que sempre chega atrasado, R. é aquele cara que sempre faz um paralelo político com os espartanos ou os atenienses, no começo era legal, mas essas comparações já me irritam profundamente. ele pisa leve e de ponta dos pés para não molhar a barra da calça, se senta ao meu lado, me pergunta se já passou a lista, digo que não. as pombas saem da sala, R. pega a lista de frequencia nas mãos, ele me lembra Alexander Delarge sem as sombracelhas, seus dentes são demasiadamente amarelos mas seu rosto ainda sim é bem parecido com o do personagem de kubrick, ele dá um toque em A. para acordá-lo, seus sonhos esparramados no chão parecem vibrar, meu reflexo se aproxima de mim com extrema velocidade, parece que estou caindo de um precipício. A. acorda, o chão está seco. A. assina a lista, o sinal toca. olho para o meu desenho novamente e fecho meu caderno.