quinta-feira, dezembro 06, 2007

Dog's mind

Naquele domingo matutino um cachorro de pêlos brancos e bem cuidados, vestido com uma roupinha de cachorro azul com listras brancas bem limpa e elegante, usava também uma coleira de couro legítimo e com uma pedra brilhante ao centro. ele, como que por ozmose de uma vida inteira frequentando este quarteirão, desce a rua dos Estudantes com uma tranquilidade cotidianamente banal, ele gosta da mistura de aromas das comidas e dos perfumes ora suaves, ora excessivamente adocicados das pessoas que circulam na apertada feirinha do bairro da Liberdade, pensa em como o dia está bonito, faz planos para a tarde, talvez um relaxante banho com sais aromáticos, ou uma bricandeira qualquer com o neto de sua dona, isso se ele vier... No momento que e vai concluir este pensamento, ele se dá conta de que sua dona não está atrás dele como de costume, o aroma de seu perfume não lhe vem ao focinho, ela sumiu. O cachorro tenta desesperadamente através de seus olhos P/B encontrá-la, mas seu esforço é em vão, senta-se, está exatamente na esquina das ruas dos Estudades e a da Glória, pensa em subir de volta a praça, hesita, acha melhor não, lá é demasiado confuso, ele iria se perder mais ainda. O cachorro respira fundo, suas patas tremem, seu coração está disparado, não sabe o que fazer, ou o que pensar, percebe então que um casal está sentado na esquina bem próximo a ele, numa porta de aço de um estabelecimento comercial qualquer que está com as portas fechadas, vê o casal tirar de um saco plástico um pacote com uma porção de sashimi, começam a comê-lo com Hachis verdes com detalhes dourados, o cachorro os observa longamente, o rapaz é um oriental tem cabelos pretos e alguns fios brancos, usa uma camisa quadriculada, e a garota uma ocidental, magra, branca, cabelos negros e bastante elegante, ambos aparentando vinte e poucos anos, o cachorro pensa por que um casal de ares tão modernos estariam comendo um prato tão sofisticado como sashimi de salmão em uma esquina tão suja e decadente como aquela, neste instante estemece, e se ele tiver que viver agora em uma rua suja e decadente pra sempre??? morar nas ruas da Liberdade, continua seu pensamento, Liberdade? livre na Liberdade, começa a achar a liberdade um conceito um tanto irônico, por que querer ser livre? pra isso? num pensamento aristotélico-sartreano conclui que a liberdade não pode se resumir a isso, lembra-se então de quando sua dona conversava com um amigo sobre os conceitos filosóficos marxistas sobre liberdade e sua relação não individual, mas social, e que a mesma só teria espaço dentro da contingência, do acaso, o cachorro não havia entendido na época, mas agora aquilo fazia muito sentido para ele, ri por dentro, ele que detestava as concepções de sociedade de Marx, e agora concordava com ele... Percebe que o casal olha para ele e cochicham algo, tem certeza que falam dele, mas o quê? deduz que devam estar falando da sua roupa, sempre falam da sua roupa, no começo ele a odiava, mas depois que descobriu que sua roupa era uma releitura do estilo "Navy" e que este está "super IN" atualmente, a usa até com um certo prazer, e as listras remetem ao Old School, que ele gosta bastante. De repente, o aroma suave do perfume de sua dona lhe invade o focinho, olha ao topo da rua dos Estudantes e vê sua dona descendo a rua calmamente, sua alegria e alívio são tanto que seu rabinho balança com grande violência involuntária, ela se aproxima e faz um carinho em sua cabeça, como o cachorro está feliz por vê-la, sua sensação é tão viceral que vê-la ali é como se fosse o Jovem Werther (o célebre personagem de Goethe)em um porre pela sua amada Charlotte, contemplando "a noite estrelada" de Van Gogh... momentos depois, o cachorro já refeito, olha para o casal que por sua vez o observa também, se entreolham e como que em uma fina sintonia se despedem, sente que estão felizes por ele, se vira para sua dona, que o fita nos olhos com a ternura que lhe é de costume, põe a corrente na sua coleira, atravessam a rua, e o cachorro vai então embora para ser feliz.


PS: texto em colabração com Mari's Mind.