a marcha dos pingüins
Todos os dias por volta de 7:30 da manhã eu percorro um pequeno trecho que liga os trens da CPTM da estação da Luz com o metrô Luz, e neste horário de típico rush o excesso de pessoas e a limitada quantidade de catracas faz formar uma imensa fila de pessoas que vão se amontoando pouco a pouco até acontecer o que um amigo meu chama de a Marcha dos Pingüins, pois a passos curtos vamos todos caminhando em direção ao metro, uma voz onipresente (descobri depois que é um funcionário da SSO) certa vez disse que tal percursso dura 8 minutos, já fiz as contas 3 vezes e a média deu 11 minutos (num fim de semana o tempo é de 40 segundos), 11 minutos de pura reflexão existencial, pois durante os pequenos passos, o calor humano, os rostos vazios e apáticos, os cheiros de perfumes ora doces ora suaves, me faz pensar por que existimos? qual o significado das filas, da construção social no sentido hierárquico e funcional, e até mesmo ideológico, como somos guiados sem nos dar conta, aos montes para fazer a máquina funcionar, e que ao passar pela catraca nos achamos livres, livres para pegar a fila da escada rolante, e da porta do metrô, um fatalismo cômodo, como a mulher da bolsa de oncinha, que a pequenos passos, acha que é livre para comprar adereços que combinem com a estampa, ou com o velho que explica para seu neto que a fila é normal, e que temos que nos acostumar, que é preciso para o metro não se sobrecarregar, como se tudo fosse culpa nossa, da nossa vontade, do nosso prazer de se locomover, de irmos e virmos, de ser felizes como quisermos, não estamos felizes na fila, mas achamos que vamos ficar quando passarmos a catraca, nunca fiquei feliz depois da catraca, Schopenhauer estava certo como um soco no estomago, sofrer, sofrer e sofrer, e Marx como um chute no pâncreas, não sabemos que sofremos, somos anestesiados por algo incrivelmente eficiente, que nos faz ficarmos apáticos e acomodados na porra da marcha dos pingüins. A catraca chegou.
