quarta-feira, janeiro 30, 2008

a Sony e as FARC

trabalho uma vez por semana numa favela na vila Brasilândia na zona norte de SP, dou uma oficina e faço uma assessoria de qualificação profissional para recém-saídos da Febem, não sei porque mas aceitei, e hoje descobri como é foda falar sobre emprego e trabalho sem ser um idiota do sistema capitalista, e levar em consideração questões sócio-políticas pra garotos que foram presos por tráfico ou roubo. No fim das contas a unica coisa que faço nas oficinas é discutir filosofia, política e ética (no sentido filosófico) com eles, emprego? eu e eles sabemos que isso é fora de cogitação, o que me deixa profundamente incomodado, discutimos discriminação racial e táticas de sequestro relâmpago, humanismo e assalto a mão armada, tarifação de drogas e piso salarial de faxineiros e traficantes, a força de vontade de sobreviver com dignidade, isso é dolorido demais pro meu estômago, me sentia feliz de no fim de semana comer comida mexicana com meus amigos e discutir como vai o amor e faculdade, agora me sinto um burguezinho de merda.

um dos garotos me disse que ele gostaria de entrar em um banco com uma granada sem o pino na mão e dizer para o cara do caixa "me dá o que é meu, só isso, o que é meu.." e que daria o dinheiro para as crianças da rua dele comprar chinelo, ao invés de roubarem os chinelos novos das outras crianças do bairro vizinho... num momento de extase intempestuoso disse "porra isso é genial!!", e os alunos me disseram se eu era a favor do trabalho ou do crime, da exploração desopótica do capital ou da liberdade..

puta que pariu, as vezes acho que vou deixar a barba crescer até minha barriga e me alistar nas FARC, ou ir pro Japão e trabalhar de peão numa grande empresa de eletronicos e viver alienadamente feliz num sistema capitalista que funciona de fato.

terça-feira, janeiro 22, 2008

cheiro poético

sexta-feira. noite. estou no ponto de ônibus esperando o S-36 pra voltar pra casa. estou vindo do ensaio da minha banda. penso nos arranjos rítmicos que pretendo fazer para as músicas novas. penso que talvez precise ouvir algumas bandas para me influenciar em determinadas texturas ritmicas, penso em ouvir superchunk, acho que tem no meu Ipod...
_ esse mundo fede!!! - esbraveja um senhor que apareceu subitamente em minha frente, não sei exatamente de onde, mas que fulminou totalmente a minha linha de raciocínio.
_ esse mundo fede, você não acha? - me pergunta. aparentando uns 45 anos, estatura média, barba por fazer, usa um terno velho e um tenis rainha iate tão velho quanto seu terno. seu rosto denota certo rancor e melancolia, e um brilho desbotado lateja de tempos em tempos nos seus olhos presos em olheiras profundas como molduras decadentes de quadros baratos. - fede sim - respondo sem muita vontade, odeio conversar quando quero ficar pensando.
_ fede pra caralho!! - vocifera o homem, penso que ele vai me bater, tamanho é a força contida em suas palavras, percebo que sua boca cheira álcool, penso que deva ser álcool zulu, o que me deixa profundamente nauzeado, devido a uma adolescencia marcada de porres homericos meu organismo não suporta mais esse cheiro. - mas vou te contar uma coisa - continua falando, seus olhos voltam a brilhar. - quando uma pessoa nasce a primeira coisa que ela cheira é merda, pois perto da vagina da mãe fica localizada o ânus, que provavelmente deve estar fedendo devido ao medo e a dor!!! - exclama, fico sem reação.. "o mundo fede" ecoa dentro de mim, percebo então que além dele cheirar álcool zulu, ele também fede a mijo, e ali parado naquela rua suja e alaranjada pela iluminação de mercúrio dos postes, esmagados pelo vazio do concreto dos edifícios tipicamente burgueses daquela rua, o vi de uma forma estranhamente poética, uma espécie de expressionismo marginal, e acima de tudo, um humano, no sentido mais puro da palavra, brutalmente puro, brutalmente humano.
o meu ônibus chegou, sem nos despedirmos embarquei, e da janela do onibus o vi ser engolido pelo vazio..