continhas de dividir
são meia noite e quinze, o ônibus está vazio, só há eu, um homem magro de 40 anos aproximadamente, e o motorista no ônibus, o ônibus é daqueles que não tem cobrador. Estou quase chegando em casa, estou exausto, a viagem diária é sempre longa e cansativa, só penso em tomar banho e ir dormir. O homem se levanta e dá o sinal, ele vai descer um ponto antes do meu, penso na sorte dele descer um ponto antes, pois ele acabou me lembrando que eu descerei no próximo, as vezes eu esqueço que preciso descer do ônibus, o ônibus freia, pára, e ao abrir a porta traseira, sobem de repente 2 homens, mal vestidos, agressivos, um deles vai direto ao motorista, pede dinheiro, o outro olha para mim, não tenho coragem de olhar para ele, "caralho, e aí Japa quanto tempo!!!" diz ele, viro-me e ele me cumprimenta, reconheço-o mas não consigo me lembrar de onde, retribuo o cumprimento com um sorriso, levanto-me, dou sinal, o outro homem está assaltando o motorista, o ônibus pára, eu desço, o ônibus continua, os homens não descem, ao sair do ônibus, o homem que me reconheceu grita "satisfação!" sorri para mim. Vendo o ônibus partir, me lembro quem era o cara, era um garoto que sentava ao meu lado na 2ª série, ele não sabia fazer contas de dividir, a professora pedia para mim ajudá-lo a resolver as contas, nunca fomos muito amigos, mas nos dávamos bem, ele sempre me dava bala.. Caralho, o cara virou ladrão, foi estranho, saber que nossas vidas tomaram rumos tão diferentes, ele era um garoto bonzinho, e nos olhos dele hoje vi o quão vazio e triste ele estava, gostaria de tê-lo reconhecido na hora, perguntar se ele havia aprendido a fazer contas de dividir. Como a vida dividiu.
